E um tanto criminoso...
E um tanto criminoso...


E um tanto criminoso...

home, pergunte-me, minha autoria, sobre o nome, fotos, submit, theme
Tumblr de fotos, falem comigo lá :) tô a fim de conversar...
25/2/12

Fiz o tumblr de fotos, vejam :)

http://cccarousels.tumblr.com/

25/2/12

Só queria avisar(de novo) que não vai dar pra eu ficar postando aqui, nem pouco como eu estava. Tinha dito que ia entrar de vez em quando, responder umas asks, postar uma coisa ou outra e só, mas decidi fazer um tumblr de fotos, que é mais fácil de ser administrado e vou largar esse aqui por um tempo. Vou responder asks lá e vou deixar meu facebook aqui pra quem quiser adicionar, falar comigo ou sei lá, porque lá eu entro todo dia, etc.

17/2/12

A Sarjeta de todos os Heróis

     Lá fora os passos são esquisitos, o cheiro camuflado de gasolina incomoda e não se pode ver o céu como antigamente. Lá fora as árvores são cortadas antes de morrer e existem cacos de vidros na calçada dos bares ao amanhecer. A mulher do andar de cima acorda antes das seis todo santo dia, incluindo domingos e feriados, e eu ouço o barulho dos seus saltos no piso de madeira. Eu tenho paralisia do sono, por isso fico entre o sonho e a realidade a cada despertar, sem conseguir mover meu corpo. No último segundo de sonho, alguém bate na porta, mas no segundo seguinte é realidade e não tem ninguém batendo, só a mulher do andar de cima passando de um lado pro outro. Lá fora nunca será convidativo.

     Posso olhar o teto branco ou meus dedos dos pés imóveis enquanto faço força para me mexer. Todo santo dia, como se eu não aprendesse. Fazer força é tão pequeno. Então durmo de novo por três segundos e estou livre para comandar minhas próprias pernas. Não abro a janela. Portão de condomínio, esquina asfaltada ou clube particular não são endereço de felicidade. Endereço de felicidade é a sarjeta que só os heróis encontraram, ou algum dia haverão de encontrar. Os meus verdadeiros heróis estão todos lá, pois nunca conheci sequer um deles. É a prova de que preciso para acreditar.

     Quando alguém encontra um verdadeiro herói, tem pena dele. Isso quando encontra. É uma coincidência quase improvável. Exige muito sacrifício por parte dele sair do seu círculo de deslumbramento. Não tem dinheiro de sobra, não come receitas sagradas e não consegue chegar na lua. Talvez seja considerado com menos respeito que os outros, é sumido e sombrio, misterioso. Alguns criam tiques nervosos, outros têm esquizofrenia passageira. Alguns provam a paralisia do sono e outros simplesmente têm insônia em excesso. Obscuros e escorregadios. Enquanto ninguém olha no seu esconderijo secreto.

     Debaixo da minha cama, há um abajur. Quando se liga o abajur, há um céu de estrelas completamente visíveis pintadas a mão na madeira da minha cama. Dentro de cada estrela pintada, há uma pista para salvar a sua vida do mundo caos. Mas, nas quinas, há teias de aranhas e a poeira que esquecemos de tirar, pois já era tarde demais.

     Mesmo assim, há o céu de estrelas heroicas a salvo. E a força do meu pulso - digo, não a força, pois força é tão pequeno, mas sim aquela alma das coisas que vive sem se importar se estamos a um segundo antes ou a um segundo depois da paralisia do sono de todos nós - foi essa coisa que me tornou um herói. Na minha sarjeta de todos os dias. Na paz de estar sozinho e protegido da invasão de todas as buzinas anti-soníferas lá de fora. Aos poucos e cada vez mais imortal.

     Os heróis são felizes, mesmo quando não acreditam na felicidade. E meu endereço se confunde com a rosa dos ventos gêmea das minhas estrelas. Meu endereço não é essa rua, esse prédio ou esse apartamento. Meu endereço é aquele que ninguém pode conhecer sem confundir com a sarjeta. Mas não uma qualquer. Uma sarjeta onde os homens - é segredo - podem ser chamados de heróis.

– Mariane Cardoso 

"Era um grande médico de uma área que a medicina não toca. Ele consertava discos voadores e, além disso, tinha um arco-íris no portão que servia de ponto de referência pra quem quer voar. A gente é sempre angustiado com essa cisma de querer ter asas, parece bicho de luz, que voa e vai atrás dos seus desejos, faz da lâmpada do meu quarto o seu sol, se aprofunda, morre como o mais banal dos animais. A morte mais simplória, e uma das mais poéticas, que não é escrita por ninguém. Há dez anos atrás eu também riria do consertador de discos voadores, muita gente o chama de louco, eu também chamaria, mas eu o entendo hoje. Ele te dá uma saída. A letra, quebrada, alçando voo, a pobreza da casa que esconde a riqueza do coração. O infinito vive ali. Mas as pessoas morrem, suavemente, comhttp://www.blogger.com/img/blank.gifo bichos de luz, como uma flor na podridão, como tudo aquilo que reprime a si próprio. As pessoas se queimam na luz de seus medos. Caem. A boca repleta de batom, o suor escorrendo, a vontade de se entregar e dar seu corpo até o mais ínfimo dos orgasmos, ofegar pelo cansaço de uma longa tarde de amor e sexo sem pensamentos e sem invasão. Voar, como um bicho de luz, ao encontro do que deseja, e morrer se for preciso, mas morrer na satisfação, agonizando de felicidade e loucura ao chão, com as asas queimadas e exalando a transpiração de quem finalmente pode dormir sem culpa. E quem conserta discos voadores vai além, de si, dos outros, da própria agonia, dos profetas, do mendigo com flores brotando de seus cabelos sujos, deixa a xícara de café, o próprio ser, para consertar aquilo que a gente não pode medir, nem pesar. Ele não consertava só discos voadores, ele consertava sonhos."

Adriano C., O Consertador de Discos Voadores

"Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer ”pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso."

– Clarice Lispector 
11/2/12

O que é folgado me desanima

     O tempo que eu tenho de sobra assemelha-se ao resto dos tempos que as outras pessoas perderam por escolha própria, em plena consciência. Como os frutos que só caem envenenados de tanta esperança, aguardando o prodígio na flor da idade que passa justamente enquanto estamos de olhos fechados. Como as ferrugens que nascem de tanto ar, de tanto espaço, amplitude e folga, as malditas ferrugens pequenas e destrutivas que aparecem e aparecerão quanto mais vasto seja o horizonte.

     É inútil, mais hora menos hora mais hora e a mesma pessoa que habita dentro de você, com as mesmas inspirações, as mesmas ideias, caprichos e fantasias. Nem mais, nem menos. Mesmo que haja todo o tempo do mundo.

     Como a liberdade que você tanto pestanejou e que depois de conquistada só servia como título. A gente não tem o que fazer com isso. Mais liberdade menos liberdade e os mesmos medos que assombram o fazer, o mesmo ócio que amarra seus braços aos braços do sofá e faz você dormir.

     Enquanto o mundo gira mais rápido menos rápido e você sonha os mesmos sonhos.

— Mariane Cardoso

"Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o que? Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranquila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de um dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento. Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responde às minhas próprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto. Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pé pra casa, avariada. Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu nunca amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travessos. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor."

– Martha Medeiros, Divã 
10/2/12

Alice, Uma Sereia, Um Cemitério, Um Casamento e a Eternidade

      ”Eu nunca pensei muito em como seria a morte, mas não imaginava que fosse desse jeito. Pensei que fosse mais cruel. Pensei que cairia num buraco negro, segurando tuas mãos. Só nos resta esperar que nosso padre nos eternize. A morte. Alice, nosso enterro já é amanhã, às seis.”

      Primeiro, gostaria de colocar os acontecimentos e fatos em uma certa ordem cronológica. Bem, meu enterro aconteceu ontem, às seis, e eu nunca me senti tão vivo como agora. As nuvens cinzas, o céu carregado, as gralhas e seus olhos dourados… A minha vida, eu sinto como se agora ela fosse… linda. Como se agora eu tivesse alguém pra amar. Mesmo que doente, mesmo que quebrado, sinto como se eu pudesse me jogar de um abismo e esperar por alguém no fim. Como se eu pudesse enfiar uma garrafa de cachaça goela abaixo e mergulhar no mar. Sem perigo. Ou com todos eles.

      Como eu sempre digo, Sereias são criaturas cruéis e perigosas, e é suicídio criar laços com qualquer uma delas. Seus seios magníficos, seus cabelos negros e os poucos fios que prendem na boca cor de sangue… Elas são muito pra qualquer um. É impossível ser sã com qualquer uma delas ao lado. Controle, isso não existe. Quem seria tão tolo pra cometer o crime de se apaixonar por uma criatura dessas? Eu. Eu sou o tolo, o cachorro. E, ontem, bem, ontem eu casei com sete mulheres. Meu casamento foi lindo… e fúnebre. Como os olhos de Alice. Sim, Alice. A sereia. As sete mulheres. Escrava, Princesa, Cigana, Prisioneira, Pássaro e Sol. Na pele de uma só.

      Sobre meu casamento: eu queria casar de joelhos. É com essa frase que gostaria de iniciar qualquer tipo de explicação sobre meu casamento. Meu caro, a mulher… A mulher é cruel até em seus suspiros. Seus cabelos, como sempre, presos em sua boca rachada e vermelha. O cenário e toda a encenação não poderiam ser diferentes… Primeiro a brisa, depois o olhar arrogante, como se eu fosse uma espécie de verme. E uma particularidade instigante: o vestido. Vermelho, como a cor de seu próprio sangue e de seus lábios. O nevoeiro a sua volta, como se até as nuvens estivessem aos seus pés. A platéia de gralhas. Os olhos dourados e hipnotizados por toda parte. Até a Morte, padre digno de nosso casamento, pensava em como um cachorro como eu teria conseguido uma mulher tão maravilhosa. E eu, pobre coitado, pobre felizardo, de joelhos… Porque, veja bem, poderia ser de outra forma?

      Sobre o cemitério: nossa terceira casa. A primeira, o mar. A segunda, meu coração de coelho, para Alice. Ou minha alma vagabunda. Para mim, a segunda casa é um palacete em chamas. O caos. Os olhos de Alice. Por quê? Eu disse que é impossível ser sã ou ter controle de si, quando ao lado se encontra uma sereia. E é verdade, mas quando não se é sã? E é por isso que faço do caos minha segunda casa. Porque é lá que eu sei que ainda sou, que ainda existo. É lá que eu tiro uma folga, porque é preciso. Em cada uma das sete personalidades, existe uma espécie de tornado. E lidar com cada personalidade, é loucura. É ter o coração rachado, ter a pele seca, os tecidos dilacerados e se sentir como uma espécie de Deus Romano. 

      E isso tudo, meu caro, não é nem metade. Essa é só a personalidade mais forte: a de sereia. Porque, além de tudo, a mulher é frágil como se o coração fosse de cristal, e ao mesmo tempo, forte como se tivesse um tornado guardado dentro de si. Ela é toda a minha dor, toda minha angústia, meus calafrios e o que me assusta. Ela é o que me deixa doente, mas a sua voz é a minha cura. É sensual até quando chora. Seus lábios famintos denunciam a lista de desavisados que tiveram a alma encaixotada. Ela é o que me deixa de joelhos, o que me ergue do fundo do poço e o que me joga em abismos. Ela é a imensidão do mar, e tão cruel e revolto quanto. Ela é tudo, até quando não tem intensão de ser nada. Ela é a personificação do amor, pra mim.

      Sobre a eternidade: ela existe, e eu a vejo toda vez que olho nos olhos de Alice. E eu a sinto toda vez que toco a pele quente, ao mesmo tempo que gélida, da mulher de sete personalidades. Mas eu sei que existe pelo simples fato de correr amor até pelas nossas veias. Eu sei porque, quando se encontra alguém pra amar pela eternidade, a gente simplesmente sabe. Esse deve ser meu fardo: amar. Porque é disso que eu sou feito, amor. E, em Alice, isso é evidente até na vermelhidão de seus olhos.

João Amaral

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