Lá se vão elas. De passagens. Indo e voltando, querendo e ficando… Minhas. Aqui estou e aqui elas estão; de enlaces as minhas mãos num juramento de que adoram essa morada. Vemo-nos cara a cara, até negociamos uma partida sem vestígios de volta ou visitas. Mas é persistente, sua teimosia vibra autoritária em seu ser tristonho. Eu, que tenho em mim uma particular teimosia semelhante, rastreei as maiores essências, procurei, (famintamente), as melhores sensações que uma alma pode querer; pois até então ainda acreditava que houvesse salvatério, que a qualquer hora viesse dela uma redenção bendita. Era este meu subterfúgio. Mas agora lhe digo que nada viera. Se me fiz grande foi do tempo, mas logo se percebe que ainda sou pequena por dentro. Tão pequena que é difícil me ver. Vivo escondida, encolhida e assustada. Querendo tanto e pouco tendo… Jamais me foi fácil viver! A tristeza vive por mim, vestindo-me em seu manto nesse reino de tormenta onde sabe exatamente como sobreviver.
Mas queixo-me eu sobre tudo o que me ocorre, é apenas o que me resta a fazer. Se a noite eu abro qualquer janela de casa, as estrelas nada me dizem no meu olhar suplicante; a cena a Lua ignora, até ouço-a cantarolar alguma canção inventada no instante; o vento que corre por entre a copa das árvores me entrega seu silêncio, apenas ele e nada a mais. Tudo me é mudo e mau, tudo se estende nas outras noites ainda nem escritas. E eu não sei aonde se escondera a minha vida, já nem me recordo de como era ela nessas doidas impressões do tempo que me faz vê-lo correr. Que me levasse então, pois mesmo em resquícios e em esconderijos nesse corpo, a dor da tristeza ainda consegue me achar.
E ela dança quando me vê. Faz passos e espetáculos, aos pulos e aos giros. Ela dança e chama-me para dançar. Todos dançam. Até o mundo dança nessa coisa de rotação. Mas dançar, quem sabe, é quem dança a beira do abismo e não tem medo de errar o passo.
É por isso que eu nunca dancei.
— SmtR