Esperávamos em segredo, separados pela mulher de amarelo que dividia o aeroporto em dois. Meu vestido branco apertava a cintura e você a apertava ainda mais de felicidade, tudo enquanto o céu acima de nós era cortado por idas e vindas, como a gente nunca deixou de saber. Aracaju gritava um sol forte, daqueles que põem medo e admiração, assim como o amor. A mão segurava a sua e a boca encostava na sua, com quase 2 horas de atraso. E essa foi nossa primeira contagem para o início do mundo.
Poderia ser mais intenso? Não poderia. Temos todos os sonhos na ponta dos dedos. Todas as suas luas novas de sal e os grãos de pólen das flores do Parque da Sementeira que refazem por inteiro o nosso ciclo vicioso. Quantos quilômetros voou para ver o mar? Quantas ruas atravessamos sem pretensão de saber ou de esconder a cidade? Quantas danças de olhos fechados na areia, na calçada ou no meio de duas prateleiras em um supermercado qualquer? Tudo porque os segundos eram esticados em nosso relógio. Tudo pra dar tempo de nascer, crescer e morrer numa única semana. 37 horas por minuto, como você me contou em promessa. O nosso cronômetro para acordar com a pressa de provar toda manhã que dormíamos a um quarteirão de distância, nossos votos de interpretar pelo olhar e nossos joelhos, que doíam felizes de tantos caminhos, valeram por todo o Janeiro.
Agora sou feita de números e toques de Miguel. E mesmo assim me assusto com a verdade.
Você ainda se sente a mesma pessoa. Eu também.
Quando descíamos os 15 degraus do Riomar, a balconista nos olhava. Tinha muito tédio e desesperança no rosto, não conseguiu desviar a atenção de nós. Era mais uma das nossas contagens regressivas. Ela, como todos os outros que até aquele momento moravam no comum, conseguiu perceber que podia viver no mundo de olhos fechados. Muita gente sorriu naquele dia sem saber porquê. Sem saber das coisas que você recitara uma a uma na altura da minha boca e que eu finalizei, antes e depois, engolindo sua alma num sopro.
Junto tudo e cheiro de novo a folha que deixou comigo. Erraram aqueles que se obrigaram a escolher entre a poesia e a vida. Foi poesia viva.
Eu te amo ao mesmo tempo em que você segura meu pulso, ao mesmo tempo em que você canta me chamando de doce vampiro, ao mesmo tempo em que você olha bem fundo e sem pudor de descobrir todos os meus silêncios, minhas respostas e podridrões. Porque você também quer abraçar todas elas no pacote onde leva o meu pedido de mais. Eu te amo com toda a inocência e o colorido da Praça Zilda Arns. Eu te amo com toda a maldade de duas poltronas sem braços no canto da sala e uma luz de cinema apagada. Ainda ouço as conchas ao longe e os deuses do mar que choram, que imploram e choram, desde que você partiu—.