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Alice, Uma Sereia, Um Cemitério, Um Casamento e a Eternidade

      ”Eu nunca pensei muito em como seria a morte, mas não imaginava que fosse desse jeito. Pensei que fosse mais cruel. Pensei que cairia num buraco negro, segurando tuas mãos. Só nos resta esperar que nosso padre nos eternize. A morte. Alice, nosso enterro já é amanhã, às seis.”

      Primeiro, gostaria de colocar os acontecimentos e fatos em uma certa ordem cronológica. Bem, meu enterro aconteceu ontem, às seis, e eu nunca me senti tão vivo como agora. As nuvens cinzas, o céu carregado, as gralhas e seus olhos dourados… A minha vida, eu sinto como se agora ela fosse… linda. Como se agora eu tivesse alguém pra amar. Mesmo que doente, mesmo que quebrado, sinto como se eu pudesse me jogar de um abismo e esperar por alguém no fim. Como se eu pudesse enfiar uma garrafa de cachaça goela abaixo e mergulhar no mar. Sem perigo. Ou com todos eles.

      Como eu sempre digo, Sereias são criaturas cruéis e perigosas, e é suicídio criar laços com qualquer uma delas. Seus seios magníficos, seus cabelos negros e os poucos fios que prendem na boca cor de sangue… Elas são muito pra qualquer um. É impossível ser sã com qualquer uma delas ao lado. Controle, isso não existe. Quem seria tão tolo pra cometer o crime de se apaixonar por uma criatura dessas? Eu. Eu sou o tolo, o cachorro, o pobre coitado. E, ontem, bem, ontem eu casei com sete mulheres. Meu casamento foi lindo… e fúnebre. Como os olhos de Alice. Sim, Alice. A sereia. As sete mulheres. Escrava, Princesa, Cigana, Prisioneira, Pássaro e Sol. Na pele de uma só.

      Sobre meu casamento: eu queria casar de joelhos. É com essa frase que gostaria de iniciar qualquer tipo de explicação sobre meu casamento. Meu caro, a mulher… A mulher é cruel até em seus suspiros. Seus cabelos, como sempre, presos em sua boca rachada e vermelha. O cenário e toda a encenação não poderiam ser diferentes… Primeiro a brisa, depois o olhar arrogante, como se eu fosse uma espécie de verme. E uma particularidade instigante: o vestido. Vermelho, como a cor de seu próprio sangue e de seus lábios. O nevoeiro a sua volta, como se até as nuvens estivessem aos seus pés. A platéia de gralhas. Os olhos dourados e hipnotizados por toda parte. Até a Morte, padre digno de nosso casamento, pensava em como um cachorro como eu teria conseguido uma mulher tão maravilhosa. E eu, pobre coitado, pobre felizardo, de joelhos… Porque, veja bem, poderia ser de outra forma?

      Sobre o cemitério: nossa terceira casa. A primeira, o mar. A segunda, meu coração de coelho, para Alice. Ou minha alma vagabunda. Para mim, a segunda casa é um palacete em chamas. O caos. Os olhos de Alice. Por quê? Eu disse que é impossível ser sã ou ter controle de si, quando ao lado se encontra uma sereia. E é verdade, mas quando não se é sã? E é por isso que faço do caos minha segunda casa. Porque é lá que eu sei que ainda sou, que ainda existo. É lá que eu tiro uma folga, porque é preciso. Em cada uma das sete personalidades, existe uma espécie de tornado. E lidar com cada personalidade, é loucura. É ter o coração rachado, ter a pele seca, os tecidos dilacerados e se sentir como uma espécie de Deus Romano. 

      E isso tudo, meu caro, não é nem metade. Essa é só a personalidade mais forte: a de sereia. Porque, além de tudo, a mulher é frágil como se o coração fosse de cristal, e ao mesmo tempo, forte como se tivesse um tornado guardado dentro de si. Ela é toda a minha dor, toda minha angústia, meus calafrios e o que me assusta. Ela é o que me deixa doente, mas a sua voz é a minha cura. É sensual até quando chora. Seus lábios famintos denunciam a lista de desavisados que tiveram a alma encaixotada. Ela é o que me deixa de joelhos, o que me ergue do fundo do poço e o que me joga em abismos. Ela é a imensidão do mar, e tão cruel e revolto quanto. Ela é tudo, até quando não tem intensão de ser nada. Ela é a personificação do amor, pra mim.

      Sobre a eternidade: ela existe, e eu a vejo toda vez que olho nos olhos de Alice. E eu a sinto toda vez que toco a pele quente, ao mesmo tempo que gélida, da mulher de sete personalidades. Mas eu sei que existe pelo simples fato de correr amor até pelas nossas veias. Eu sei porque, quando se encontra alguém pra amar pela eternidade, a gente simplesmente sabe. Esse deve ser meu fardo: amar. Porque é disso que eu sou feito, amor. E, em Alice, isso é evidente até na vermelhidão de seus olhos.

João Amaral

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    tanto criminoso…: Alice, Uma Sereia, Um Cemitério, Um Casamento
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    cachorro, o pobre coitado.
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