Era um grande médico de uma área que a medicina não toca. Ele consertava discos voadores e, além disso, tinha um arco-íris no portão que servia de ponto de referência pra quem quer voar. A gente é sempre angustiado com essa cisma de querer ter asas, parece bicho de luz, que voa e vai atrás dos seus desejos, faz da lâmpada do meu quarto o seu sol, se aprofunda, morre como o mais banal dos animais. A morte mais simplória, e uma das mais poéticas, que não é escrita por ninguém. Há dez anos atrás eu também riria do consertador de discos voadores, muita gente o chama de louco, eu também chamaria, mas eu o entendo hoje. Ele te dá uma saída. A letra, quebrada, alçando voo, a pobreza da casa que esconde a riqueza do coração. O infinito vive ali. Mas as pessoas morrem, suavemente, comhttp://www.blogger.com/img/blank.gifo bichos de luz, como uma flor na podridão, como tudo aquilo que reprime a si próprio. As pessoas se queimam na luz de seus medos. Caem. A boca repleta de batom, o suor escorrendo, a vontade de se entregar e dar seu corpo até o mais ínfimo dos orgasmos, ofegar pelo cansaço de uma longa tarde de amor e sexo sem pensamentos e sem invasão. Voar, como um bicho de luz, ao encontro do que deseja, e morrer se for preciso, mas morrer na satisfação, agonizando de felicidade e loucura ao chão, com as asas queimadas e exalando a transpiração de quem finalmente pode dormir sem culpa. E quem conserta discos voadores vai além, de si, dos outros, da própria agonia, dos profetas, do mendigo com flores brotando de seus cabelos sujos, deixa a xícara de café, o próprio ser, para consertar aquilo que a gente não pode medir, nem pesar. Ele não consertava só discos voadores, ele consertava sonhos.
— Adriano C., O Consertador de Discos Voadores